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Aliança de centro-esquerda não bastará para derrotar Bolsonaro, dizem analistas

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Para o candidato Fernando Haddad (PT), não será suficiente criar uma grande aliança democrática, aglutinando partidos de centro-esquerda, para ter alguma chance —pequena— de derrotar o líder Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno, afirmam cientistas políticos. Matematicamente, Haddad teria de herdar todos os votos de Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB) para conseguir vencer no segundo turno, algo improvável.

Para cientistas políticos, a única maneira de uma coalizão derrotar o candidato do PSL, que venceu por uma margem de quase 20 pontos porcentuais, é tirar votos dele. “E, para isso, não adianta insistir em questões levantadas no primeiro turno, como oposição à tortura e importância da democracia. Isso não afeta o eleitor de Bolsonaro”, afirma a cientista política Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília.

Seria necessário o PT investir na narrativa de retirada de direitos, como esboçado na polêmica do vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, sobre o décimo terceiro salário. “É por aí que poderia haver algum desgaste para o capitão reformado”, diz Flávia.

No entanto, seria um movimento delicado porque, ao mesmo tempo que um ataque às políticas ultraliberais defendidas pela chapa de Bolsonaro ajudaria a tirar votos dele, o PT precisa fazer um exercício de conquistar o centro e o mercado financeiro com acenos para políticas macroeconômicas mais ortodoxas.

Entre economistas, é consenso de que Haddad teria que caminhar em direção ao centro. Espera-se alinhamento com Ciro Gomes (PDT) e parte de suas propostas. “Se radicalizar para o lado da esquerda, certamente vai perder”, diz o economista Nelson Marconi, da coordenação de campanha de Ciro.

Um desafio será o movimento das igrejas evangélicas, que conseguiram mobilizar eleitores pró-Bolsonaro unindo a chamada teologia da prosperidade, que prega a ascensão social por mérito e empreendedorismo, aliada ao conservadorismo em costumes. “Certamente o ‘kit gay’ e outras questões de gênero ressurgirão com força”, diz a cientista política.

Para Flávia, o PSDB é o grande perdedor dessa eleição e o PT sai vitorioso, apesar da distância entre Haddad e Bolsonaro. “Mesmo após um processo de desmonte, Haddad teve 29%, ou seja, a transferência de intenções de voto de Lula para ele foi quase integral, considerando-se a margem de erro.”

Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da UFMG, não se pode creditar totalmente ao antipetismo a enorme vantagem obtida por Bolsonaro. “Acredito que, nas camadas mais altas de renda, o antipetismo seja o principal motor para o apoio a Bolsonaro. E essas camadas influenciam camadas mais baixas”, diz. No entanto, na classe média e nas mais baixas, o principal é uma psicologia social de apoio ao discurso de lei e ordem, afirma Reis.

“Embora em tese as pessoas apoiem a democracia, como mostrou a pesquisa Datafolha desta semana, elas apoiam um conceito abstrato. Quando se pergunta como elas veem a tortura em delegacias e chacina de bandidos, o apoio é gigantesco. Indagados se um homem honesto e forte capaz de unificar o país substituiria partidos políticos, a grande maioria dirá que sim”, diz Reis. “Esse ideário fascista de bandido bom é bandido morto é o grande apelo de Bolsonaro.”

Flávia acredita que o salto nas pesquisas que Bolsonaro teve nos últimos dias foi devido ao antipetismo —quando Haddad começou a subir, muitos eleitores de Alckmin e Marina migraram para o candidato do PSL. “Mas existe um grande porcentual dos eleitores que vota em Bolsonaro porque ele conseguiu mobilizar suas inseguranças e frustrações.”

No mercado financeiro, a vitória de Bolsonaro é considerada provável e festejada. Mas não é recebida pela maioria dos economistas como garantia de dias melhores. Existe uma preocupação sobre qual será a real chance de o economista Paulo Guedes emplacar a agenda de reformas de que o país precisa.

“O mercado financeiro vai acordar de bom humor amanhã, animadíssimo com a liderança de Bolsonaro, mas vai ser uma vitória de Pirro”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Continuo achando que Paulo Guedes e a agenda dele não serão longevos”, diz Vale, para quem Bolsonaro e seu economista teriam um “diálogo de surdos”.

Para a economista Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências, o mercado vai receber bem o resultado do primeiro turno, com forte liderança do candidato Jair Bolsonaro (PSL), e deve haver alta dos preços dos ativos de modo geral.

No entanto, a situação econômica sera difícil em 2019 e a necessidade de reformas “deve colocar uma faca no pescoço do futuro presidente”, diz a economista. Ela acha que o candidato que sair vencedor deve apresentar uma reforma da Previdência.

A cientista política Marta Arretche, professora titular da Universidade de São Paulo (USP), afirma que Bolsonaro será obrigado a explicitar suas posições em temas macroeconômicos cruciais, pela primeira vez. “Até agora, ele só foi o candidato anti alguma coisa – anti-PT, anticorrupção, antiviolência. Agora, terá de explicar, por exemplo, como irá manter a política de salário mínimo e, ao mesmo tempo, equacionar a Previdência? Como vai promover o equilíbrio das contas públicas que vem prometendo?”

O cenário mais otimista vem de seus apoiadores no meio empresarial. “Tivemos uma diferença de 20 pontos. É um excelente resultado. Vamos para a guerra”, disse Hang.

Os mais pragmáticos, porém, como Jason Marczak, diretor do Centro de América Latina Adrienne Arsht do Atlantic Council, prevê incerteza: “Qualquer coisa pode acontecer no segundo turno.”

Folhapress
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